sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Ostentar é preciso

Ter ou não ter, eis a questão. Se William Shakespeare vivesse neste século, talvez sua célebre frase, presente em Hamlet, teria sido assim escrita. Na era da globalização, da internet, dos smartphones, as coisas ganham mais importância se puderem ser exibidas para as outras pessoas. O fenômeno da ostentação pode ser criticado por muitos, mas em uma sociedade que vive de aparências, somos quase obrigados a sermos e estarmos felizes o tempo todo.

O julgamento pela aparência é inerente ao ser humano, mesmo àqueles menos preconceituosos. As redes sociais, além de serem um espaço para exposição de preferências pessoais e de debate de ideias, funcionam muito mais como um diário público do indivíduo. Quem o segue na rede sabe praticamente de todos os seus passos. Se ele foi em tal show, tal peça, se viajou nas férias, se foi para a academia no fim de semana. Pode não parecer mas tudo isso também é ostentar. Queremos mostrar ao outro que estamos felizes, que temos cultura, que temos dinheiro, que estamos saudáveis. Quanto mais curtidas e comentários nossas fotos ganharem, mas inflado se torna nosso ego, e mais pessoas saberão da nossa felicidade.

Toda essa febre atual é reflexo do consumismo, mal que tomou conta da sociedade capitalista. Novos shoppings centers são inaugurados a todo momento. Mesmo os menos endinheirados querem se exibir com produtos caros e não tão necessários assim. Compram roupas, relógios, tênis a preços altíssimos, consumindo grande parte do salário, muitas vezes não pelo benefício que a mercadoria irá lhe propiciar, mas sim, pela popularidade da marca.

A ostentação é própria do ser humano contemporâneo. Os ricos, que são minoria entre a população mundial, são mal vistos por alguns quando expõem seus luxos. Chegam a ser considerados fúteis, supérfluos. Mas esse fenômeno não se aplica somente aos afortunados, e sim a todas as pessoas minimamente socializadas. É um fenômeno de jovens, que ainda não sabem o que realmente importa na vida. Com o amadurecimento, eles tendem a ser menos ostentadores. Até Shakespeare, se estivesse vivo, compartilharia no Facebook suas conquistas materiais. Em uma sociedade onde as pessoas são tão prejulgadas, o dramaturgo inglês dificilmente escaparia à tentação de se mostrar. E não há nada de errado nisso.