Este texto escrito em 2017 tem o propósito de relembrar uma das temporadas, se não "a temporada", mais emocionante da história do Esporte Clube Bahia desde a sua fundação, no primeiro dia do ano de 1931.
Há 10 anos o tricolor tinha como objetivo principal na temporada o acesso à Série B do Campeonato Brasileiro. Depois de ter caído em 2005 da 2ª (Segundona esta que ficou marcada, além da queda dos dois times baianos, pela Batalha dos Aflitos entre Grêmio e Náutico) para a 3ª divisão, junto com seu rival, o que parecia ser o fundo do poço teve um capítulo ainda mais tenebroso: no ano seguinte, em 2006, o Vitória conseguiu voltar à Segundona sendo vice-campeão da Terceirona, enquanto que, vergonhosamente, o Bahia terminou em sexto lugar e não alcançou uma das 4 vagas de acesso (inclusive sendo goleado na fase final pelo Ferroviário do Ceará por 7x2 e perdendo em casa para o Ipatinga de Minas Gerais por 2x0, jogo que eu estava no estádio e foi encerrado aos 20 minutos do 2º tempo por causa do confronto entre a torcida revoltada, que invadiu o gramado com pedras e paus, e a Polícia Militar, que utilizou bombas para dispersar os invasores, resultando em mais de 40 feridos). Assim sendo, o Esquadrão teve que disputar a Série C por mais um ano.
Em 2007, o tal ano louco, aconteceram 4 jogos históricos na Fonte Nova, dois em cada semestre, por três competições diferentes, que sempre serão lembrados pelo torcedor tricolor, sejam pelas boas ou pelas más sensações que proporcionaram. Vamos a eles em ordem cronológica:
22/04/2007 - Bahia 5x6 Vitória - 1ª Rodada do Quadrangular Final do Campeonato Baiano - Creditados por muitos como o maior Ba-Vi da história! Ninguém naquela época poderia imaginar, mas foi o último clássico na antiga Fonte Nova, que seria interditada ao final do ano. E que clássico! Com direito a 4 gols de Índio, atacante do Vitória, três viradas de placar, dois gols de falta de Danilo Rios para o Bahia e gol de desempate nos acréscimos do 2º tempo.
Pouco mais de 60 mil torcedores lotaram a Fonte Nova e viram o Bahia abir o placar com gol de falta. O rubro-negro virou pra 2x1 com Jackson e Índio. Ainda no 1º tempo, o tricolor passou a frente novamente com Fausto e outro gol de falta de Danilo Rios. O 2º tempo começou com o Bahia vencendo por 3x2, mas o Vitória fez três gols com Apodi e Índio duas vezes e virou para 5x3 aos 25 minutos. Porém, o Bahia não estava morto. O Esquadrão empatou em 5x5 com dois gols aos 41 e 44 minutos. Mas o artilheiro da noite ainda tinha flechas a distribuir, e aos 48 minutos, Índio fez o gol do triunfo.
Ao final das seis rodadas daquele quadrangular final, o Vitória seria campeão do Baianão e o Bahia vice. O outro Ba-Vi da fase final, na última rodada, terminou num empate em 2x2 no Barradão.
25/04/2007 - Bahia 2x2 Fluminense - Oitavas de Final da Copa do Brasil - Três dias após o clássico dos 11 gols, outro jogo importante. Depois do 1x1 no jogo de ida no Maracanã, com o Bahia conseguindo o gol de empate nos acréscimos do 2º tempo (resultado que culminou na demissão do técnico Joel Santana do comando do tricolor carioca), na semana seguinte o Bahia de Fausto, Moré, Paulo Musse, Ávine, Fábio Saci e do técnico Arthurzinho enfrentou novamente o Flu de Thiago Silva, Arouca, Cícero e do técnico interino Vinícius Eutrópio numa Fonte Nova cheia com 47 mil pagantes (eu era um deles e até hoje recordo com emoção aquela partida). O técnico recém-contratado pelo Fluminense, Renato Gaúcho, estava nos camarotes do estádio vendo o jogo e assumiria o time no dia posterior.
Numa partida movimentada, transmitida em TV aberta para todo Brasil, o Tricolor de Aço esteve duas vezes à frente do placar (sendo que no segundo gol o árbitro não viu que Saci desviou para o gol com o braço), porém cedeu o empate para o Fluminense que acabou se classificando por ter feito mais gols fora de casa no confronto, mas sem vencer o Bahia nos dois jogos. Mesmo tendo perdido o Ba-Vi três dias antes, a torcida do Esquadrão encheu a Fonte Nova pois acreditava que o time tinha condições de passar pela equipe carioca e ir longe na competição, já que os adversários subsequentes eram todos sem grande tradição. Prova disso foi que o Flu depois eliminaria Atlético-PR nas quartas, Brasiliense nas semis e conquistaria o título sobre o Figueirense, garantindo assim vaga na Libertadores de 2008 (em que perderia a final para a LDU nos pênaltis num Maracanã lotado).
07/10/2007 - Bahia 1x0 Fast Clube - Última Rodada da Terceira Fase do Campeonato Brasileiro Série C - O dia que outro atacante chamado Charles entrou para a história do clube. O Bahia vinha fazendo uma campanha bastante irregular e chegou à última rodada da penúltima fase da terceira divisão precisando vencer o Fast do Amazonas, que já não tinha chances de classificação para a fase final, e ainda torcer para que o Rio Branco do Acre, jogando em casa, não vencesse o ABC de Natal, que já estava classificado. Ou seja, tudo levava a crer que o Bahia venceria fácil e que o resultado mais difícil de acontecer seria lá no Acre, há mais de 4 mil quilômetros de distância de Salvador. Mas foi o contrário: o Rio Branco ficou no 0x0 com o ABC (inclusive perdendo um pênalti) e o Bahia só dependia de uma vitória simples para avançar ao octogonal final.
Porém, a tarefa que parecia fácil se tornou complicada. Muito nervoso, o tricolor baiano não oferecia tanto perigo à meta do Fast. O 1º tempo acabou em 0x0, o que gerou vaias da torcida na saída para o intervalo, intervalo este que durou mais de 30 minutos. Malandramente, o Bahia atrasou a volta para o 2º tempo para que o jogo em Rio Branco terminasse antes do de Salvador.
Na etapa final, o juiz teve atuação muito duvidosa. Além do exagero em dar 6 minutos de acréscimos, o árbitro mineiro Rogério Pereira da Costa expulsou dois atletas do Fast e deixou de marcar um pênalti claro para os visitantes, aos 45 minutos. Mesmo assim, o Fast ainda chegou a perder um gol de cara com o goleiro. Mas aos 49 minutos as duas estrelas do tricolor brilharam. Charles, que tinha entrado em campo no 2º tempo, marcou o gol da classificação, para delírio dos quase 9 mil torcedores na Fonte Nova. Ao final do jogo, o técnico Arthuzinho cumpriu a promessa de ir a pé da Fonte Nova até a Igreja do Senhor do Bonfim.
Com o triunfo, o Bahia terminou empatado com os acreanos em número de pontos, número de vitórias e saldo de gols, e acabou se classificando no quarto critério, o número de gols pró.
25/11/2007 - Bahia 0x0 Vila Nova - Penúltima Rodada do Octogonal Final do Campeonato Brasileiro Série C - A tragédia que determinou a última partida da velha Fonte Nova. Mais de 60 mil pessoas estavam no estádio para assistir o jogo do acesso à Série B. Após duas temporadas de sofrimento na Terceirona, o Bahia conseguiu subir de divisão naquele 25 de novembro. Mas o que era pra ser um dia de festa acabou como o dia mais triste da história do futebol baiano.
O jogo seguia empatado quando uma parte da arquibancada do anel superior do estádio não resistiu e cedeu por volta dos 35 minutos do 2º tempo, matando 7 pessoas na hora e deixando dezenas de feridos, numa queda de altura superior a 15 metros. Ao fim do jogo, muitos torcedores, que ainda não sabiam da tragédia, invadiram o campo para comemorar a subida, inclusive causando tumulto ao irem pra cima dos jogadores querendo seus uniformes e ao retirarem partes da grama, dos bancos de reserva e das redes das traves para levarem de recordação. O empate foi suficiente para o acesso, mesmo com o atacante Nonato perdendo um pênalti. Se tivesse vencido o jogo, o Bahia, que terminou na 2ª colocação, possivelmente seria campeão brasileiro da Série C no lugar do Bragantino.
O estádio ficou fechado desde então e foi escolhido para sediar a Copa de 2014. A completa demolição aconteceu em agosto de 2010 e a reinauguração em abril de 2013.