sábado, 29 de novembro de 2014

O Rebu e a americanização das novelas brasileiras

Os brasileiros estamos, cada vez menos, assistindo TV aberta. Seja por causa da internet, que oferece uma infinidade de opções, de entretenimento e informação, de maneira mais dinâmica e personalizada, seja por causa da TV a cabo, que teve um crescimento gigantesco nos últimos anos e já está presente na maioria das casas, a audiência das grandes emissoras vem caindo ano a ano. E a maior representação desta decadência são as telenovelas. Apesar de ainda serem líderes de audiência, esta posição nunca esteve tão ameaçada.

As novelas são para os brasileiros o que as séries são para os americanos. Eu não gosto de novelas, pois além de durarem muito, as histórias, os desdobramentos, são bastante repetitivos e previsíveis. Já as séries, eu adoro. Efeitos especiais, roteiros criativos e sem precedentes, ritmo acelerado, personagens originais... A única coisa que as novelas brasileiras têm com a mesma qualidade das séries americanas são os atores. Disto podemos nos orgulhar: temos atores fantásticos!

Toda essa introdução, essa comparação, é só pra ilustrar a importância e a revolução feita por três caras na televisão brasileira. George Moura, Sérgio Goldenberg (roteiristas) e José Luiz Villamarim (diretor) são os responsáveis por três ótimas produções televisivas nos últimos anos, todas adaptações de obras escritas por brasileiros. O Canto da Sereia (2013), Amores Roubados (2014), e agora, O Rebu (2014), apesar de serem denominadas como minisséries, lembram muito mais as séries americanas do que as novelas com as quais estamos acostumados.

George Moura, José Luiz Villamarim e Sergio Goldenberg (Foto: Estevam Avellar / TV Globo)

Assisti a todos os capítulos das três séries, e achei uma melhor que a outra. Três histórias sofisticadas, com personagens ambíguos, demonstrando as fragilidades do ser humano, com qualidades e defeitos, sem aquela diferenciação de mocinho e vilão, e com desfechos imprevisíveis, sem finais felizes, em um tom mais realista. Tecnicamente, também, as três produções se diferenciaram do casual, se assemelhando muito ao estilo cinematográfico. Destaque para as cenas longas e com vários personagens gravadas em uma única tomada, com uma única câmera, sem cortes, que exige mais concentração dos atores.

O Rebu, a mais recente produção do trio, e que é o tema principal deste texto, foi sensacional, apesar da pouca audiência registrada. Me parece que nós ainda estamos nos acostumando com as novas formas de fazer novela. Moura, Goldenberg e Villamarim inovaram ao contar a história, que se passa entre uma festa à noite, quando acontece a misteriosa morte, e os desdobramentos do dia seguinte, com a chegada da polícia na mansão, em 36 capítulos, com o elenco usando o mesmo figurino a novela inteira. Ou seja, uma noite e um dia foram destrinchados em nove semanas.


As atuações também foram impecáveis!! Cássia Kis Magro foi incrível!! Só com o olhar, sem dizer uma palavra, ela já emociona. Que atriz!! Está, para mim, ao lado de Fernanda Montenegro e Lília Cabral como as maiores atrizes deste país. Tony Ramos e Patrícia Pillar também mostraram por que são tão respeitados no meio artístico. Os três foram responsáveis por cenas e diálogos de tirar o fôlego.

Quem me surpreendeu positivamente foi Sophie Charlotte. Eu não sabia que ela era tão boa atriz. Este deve ter sido o melhor papel da sua carreira. Ela se entregou de corpo e alma. Faço uma menção também a Camila Morgado e Vera Holtz, responsáveis pelo humor da trama. Me diverti muito com as duas ricaças doidonas que só queriam saber de champanhe e sexo, não se importando com nada. Outra menção deve ser feita à trilha sonora da novela, que foi maravilhosa. As músicas se encaixavam perfeitamente no contexto da cena.

Quanto à resolução do mistério sobre a morte do Bruno (Daniel de Oliveira), eu fui surpreendido. Apostava na Gilda, personagem da Cássia Kiss, mas o assassino acabou sendo o mesmo da história original: o dono da mansão, que era contrário ao relacionamento de seu protegido com o assassinado.


Enquanto as novelas exibidas nos horários tradicionais são feitas para o "povão", para a "nova classe C', o horário das 23h é destinado às obras mais refinadas, não sendo feitas para agradar todo mundo. Definitivamente, sou fã das novelas das 23h. A liberdade criativa que a Globo permite aos autores desse horário é responsável por ótimos trabalhos, como O Brado Retumbante e Gabriela, que eu também assisti de "cabo a rabo".

Que venham as próximas novelas das onze. Que venham as próximas histórias contadas por este trio, que está revolucionando a teledramaturgia nacional.

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